novos códigos de conduta para evitar a sexualização precoce de crianças e adolescentes

novos códigos de conduta para evitar a sexualização precoce de crianças e adolescentes

Postado por mberaldo - quarta-feira 29 junho 2011 21:30
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* Entrevista concedida a Dayanne Garcia/ jornal Diário Regional JF- MG, em 29/05/2011

Diário Regional: Na segunda-feira seis, foi publicado no Reino Unido um polêmico relatório que propõe mudanças nos códigos de conduta da mídia e do comércio para evitar a sexualização precoce de crianças e adolescentes do país. O documento, encomendado pelo primeiro-ministro David Cameron e elaborado pelo chefe-executivo da União das Mães Cristãs, Reg Bailey, é uma espécie de “carta de intenções”, que alerta os varejistas sobre a venda de roupas com cortes adultos para pré-adolescentes (faixa que abrange jovens de até 16 anos), incluindo sutiãs de enchimento, pedem a retirada de anúncios com conteúdo sexual explícito das redondezas de escolas e aconselha a classificação de vídeos musicais por faixa etária.
O documento ainda pede a diminuição de imagens sexuais e violentas na televisão antes das 21h e medidas efetivas de controle de conteúdo para adultos na internet, com sistemas robustos de verificação de idade.

Maria Lúcia Beraldo:No que se refere à erotização infantil, é muito importante esta iniciativa, tanto no controle do vestuário, quanto ao conteúdo de agressividade nos desenhos e músicas. Na internet também, afinal, existem muitas pessoas mal-intencionadas por aí. Só acho um pouco complicado manter o mesmo padrão de controle até aos 16 anos… talvez funcione no Reino unido, mas aqui no Brasil, 15, 16 anos não é mais pré-adolescente, e poderia sim, ir entrando no padrão adequado de sua fase. Mas isso deve ser algo pensado: nem reprimido totalmente nem deixado á revelia.
D.R. O que você acha dessas medidas, podemos atribuir a sexualização precoce somente a fatores como os citados acima?
MLB: Creio que não, porque nota-se que o período da infância cada vez está menor. As meninas estão entrando na puberdade e se tornando pré-adolescente-adolescentes cada vez mais cedo. Isso se deve a uma alimentação mais industrializada, rica em produtos que contribuem para o desenvolvimento corporal. Com isso, as meninas têm a menarca bem mais cedo (por volta dos 10 a 12 anos) que a de gerações atrás (era entre 12 e 14 anos). Só que um corpo amadurecido não significa uma mente amadurecida. O desenvolvimento psicoafetivo não se produz tão rápido, é preciso dar tempo ao tempo, e que os pais abracem a responsabilidade também sobre o desenvolvimento emocional de seus filhos, e não apenas dêem informação sobre doenças e contracepção ou inibam a estimulação sexual.

D.R. Caso estas medidas sejam tomadas, você acredita em uma mudança de comportamento dos jovens? O que pode influenciar no poder de decisão?

MLB: Em relação aos jovens em si, talvez a mudança seja pouco significativa… Eles provavelmente irão manter seus padrões usando outros recursos, como as outras gerações sempre o fizeram, diante de situações parecidas, em algum momento da história. O que vai influenciar na decisão é o fato de que, na adolescência, é natural questionar as regras impostas pelos adultos, é quando os jovens vão tentar criar as suas próprias convicções. Pode até que ser que quando se tornarem pais, se tornem mais caretas que os seus, mas neste momento, eles vão tentar continuar no meio midiático que já estavam até antes da restrição. E mesmo que não consigam, sua moral sexual já foi construída.Talvez a diferença seja maior nas gerações que forem chegando a partir destas alterações. Mas para ser uma mudança positiva, dependerá de vários outros fatores.

DR. Qual papel você atribui à mídia e a indústria da moda na mudança do comportamento sexual da população nas últimas décadas?

MLB: Creio que o consumismo, o imediatismo, o hedonismo e o individualismo sejam os nossos principais desafios atualmente. Eles sempre existiram, mas hoje, com a rapidez da comunicação, tem uma abrangência muito maior. E não só em função das crianças e jovens que estão entrando no mercado afetivo, mas nós, adultos, também somos susceptíveis á sedução destes valores. O erotismo, por si, brota naturalmente, de acordo com a fase, e a moda acompanhou isso sempre. E em alguns momentos, contribuindo muito para o avanço dos valores. Do contrário, ainda estaríamos usando anágua e combinação debaixo de nossos vestidos. O problema é que a moda também funciona como um código de status que, a fim de mantê-lo, faz determinadas pessoas gastarem um dinheiro que não tem, para mostrar a pessoas que elas não conhecem uma pessoa que elas não são. E isso acontece também no mundo de crianças e pré-adolescentes.

D.R. Por fim, algumas dicas aos pais para manterem um diálogo aberto com os filhos.
MLB: A educação sexual começa em casa, desde os primeiros meses de vida. O contato físico, o carinho trocado entre pais e filhos, a forma verbal como os pais se tratam e como tratam seus filhos já é uma forma especial de orientação, que constrói a autoestima, a autoconfiança e demonstra que tipo de vida afetiva a criança poderá entender como a natural no futuro. O esquema afetivo que a criança irá utilizar quando crescer estará apoiado naquilo que experimentou desde a infância, não é algo estanque, que começa no aniversário de 16 anos. Então, é importante ter em mente exatamente o que se quer, antes de partir para ação. O sexo e o erotismo não são os vilões da história, e sim seu aparecimento deslocado. Mas não se iludam: crianças têm sim, erotismo, pois faz parte da natureza humana. È razoável poupá-la do erotismo exclusivo do mundo adulto, mas o que vier a partir da criança, isto é, de suas experiências, curiosidades e descobertas pessoais, devem ser consideradas como algo natural, e por isso, não se deve reprimir com rispidez ou agressividade e nem tampouco exaltar. Uma regrinha de ouro para as situações de perguntas embaraçosas das crianças e adolescentes é sempre perguntar, antes de tentar responder, o que elas acham. Assim, vc saberá o que elas pensam sobre o assunto, acompanhando o desenvolvimento delas. E não aprofunde excessivamente em detalhes; responda somente o que elas querem saber. Isso é bom porque depois que são respondidas, elas não prestam mais atenção, e vai fazer com que ela volte para novas indagações. Afinal, o principal é que você se torne o principal ponto de referência, e não os amigos e mídias duvidosas. Lembre-se: vc não precisa ter todas as respostas na ponta da língua. Dizer que vai pensar pesquisar, e que depois poderão conversar sobre o assunto demonstra franqueza e consideração. Na dúvida, procurem sempre orientação profissional.