Crônica I. Francine
Aos 70 anos, Francine ainda sonhava em ter orgasmo com seu esposo. Ela fingia que chegara ao orgasmo todas as noites em que ela e seu marido tinham relações íntimas, mas alcançava-o somente masturbando-se, às escondidas. Geralmente isto acontecia quando, ao fim do sexo, ele ia ao banheiro se arrumar para dormir. O ato sexual também era ocasional: esquivava-se minuciosamente de seus carinhos, mesmo durante o dia – parecia mesmo temer qualquer insinuação de prazer e conforto. À noite, ao lado de sua cama ficava uma latinha de Vick Vaporub – que seu marido detestava, afinal, com o tempo, o uso do vick passou a ser o código de que ela não estava a fim de sexo: o nariz entupido era justificativa de mal-estar e indisposição para a “agradável luta”.
Vinha de uma família predominantemente masculina: tinha mais três irmãos, sendo dois mais velhos e um mais novo. Sua mãe sempre trabalhou fora, de modo que, ainda criança, fora designada a cuidar do irmão mais novo e dos afazeres domésticos.
Lembrava-se de poucos momentos de descontração e alegria, mas dos poucos que existiram, estava presente a figura de seu pai. Embora uma pessoa pacífica, ele a defendia com autoridade dos excessos de sua mãe e dos irmãos. Em suas palavras, sentia-se mais segura quando ele estava em casa. Contudo, quanto completara nove anos de idade, seu pai ficou gravemente doente e faleceu. Francine ficou transtornada – só no mundo. Não sentia vínculo com sua mãe, muito menos com seus irmãos. Foi retirada da escola para cuidar exclusivamente da casa - enquanto a mãe rejuvenesceu. Temia a agressividade de seus irmãos - e a mãe passou a arrumar namorados.
Em seu jovem coração, não entendia como a mãe poderia ter esquecido seu querido pai tão facilmente. E o pior era ver a constatação deste esquecimento: como a casa era pequena, podia acompanhar pelo espelho do guarda-roupa sua mãe tendo sexo com seus eventuais companheiros, e isto fazia seu coração diminuir a cada movimento, cada gemido de prazer sufocado pelo casal, desconectando-a de todo e qualquer sentido de vínculo afetivo duradouro. Mordia-se de ciúmes por si, pois considerava que a mãe dava a outros o amor que não dava a ela. Mas um outro sentimento intensamente desagradável também a corroia, e este se definiu, embora inconscientemente, somente na adolescência: uma inveja pela vida amorosa e independente, usufruto do prazer sem fronteiras... sua mãe era uma mulher intensa mas, o que adiantava, se o tempo todo, era exclusivamente isso: uma Mulher, não exercendo a seu ver, o papel de mãe. Assim Francine, tão pequena, sentia-se vazia – e solta no mundo.
Concentrava-se nas tarefas de casa, sem esperar muito de seus dias. Seu alento era Tobias – um cão vira-lata que a acompanhava há muitos anos. Certamente era o único cuidado que fazia com gosto, pois ele realmente a amava incondicionalmente. Mas quis o destino infligir-lhe uma nova perda: Uma noite, a lua cheia brilhava muito clara no céu. Tudo celebrava o calor do verão e, do seu modo, Tobias também cantava. Era um coral de latidos que vinha de muito longe. Preso a apenas 2 metros de corda, Tobias ansiava correr na direção da balbúrdia noturna. Seus uivos vararam na madrugada, para seu desespero e, no dia seguinte, para desespero daquela que o amava.
Aconteceu que o vizinho irritado com os latidos de Tobias, afrontou Aderbal, o irmão mais velho de Francine. Exigiu providências, fez ameaças à vida do cão. Ao que Aderbal, em um gesto que intimamente deve ter considerado uma demonstração de força e masculinidade, entrou em casa e voltou tendo em suas mãos um martelo - e atacou Tobias.
Francine saiu de casa, não conseguia ver a cena! Mas ouvia, do lado de fora, o som oco dos ossos de seu querido amigo sendo esfacelados pelo metal. Ao ouvir seus dolorosos ganidos, sentia o chão se abrir, paralisada. Sentia que o chão a sugava, e não via a quem recorrer – o que fazer, quando a mão que deveria acolher é aquela que açoita?
Nem mesmo o sofrimento lhe foi permitido, pois foi obrigada a retomar imediatamente as tarefas domésticas.
E trabalhando passou os dias, meses, anos, até tornar-se uma moça bonita, mas profundamente retraída emocionalmente. Acalentava, como toda moça, o sonho de conhecer uma pessoa que, com os dotes de príncipe encantado, a retirasse das obrigações de servir aos irmãos e lhe desse um lugar no mundo – um lugar seu. Até que um dia apareceu: Jeremias a conheceu no caminho para o trabalho, e se encantou pela luz de seus cabelos e penumbra de seu olhar (o que ele equivocadamente entendeu como castidade). Era uma moça perfeita para casar: cordata, falava pouco, pouco vaidosa e – triste obviedade - excelente dona de casa. Deste casamento, nasceram 3 filhos: dois meninos e uma menina.
Francine mergulhou na maternidade. Servia ao marido e aos filhos com dedicação esmerada, sem perceber que se mantinha unicamente no mesmo papel o qual exercera por toda a vida até então. Mas o exercício da maternidade foi dando sentido à sua vida, na medida em que a vida conjugal ia perdendo espaço.
Sua lua-de-mel fora angustiante, já que não tinha muitas informações sobre sexo. Nunca se sentira próxima à mãe o suficiente para fazer-lhe perguntas – como nunca sentira em nenhum aspecto. No trabalho, sempre evitava participar das conversas com as amigas quando o assunto era sexo. Quando era inevitável ouvir, desligava-se totalmente do grupo. Intimamente, já estava feita a associação entre prazer sexual via contato genital à imagem da mãe envolvida com seus amores, e aquele sentimento de desamparo sobrevinha-lhe, num efeito devastador.
Contudo, ao conhecer seu futuro marido, a força da natureza a forçou a rever alguns conceitos. As carícias, os abraços - mesmo que comedidos pela sua timidez e a repressão típica da época - a excitavam, e ela se surpreendeu a fantasiar com um prazer real. Contudo, em sua lua-de-mel, esse prazer não foi tanto assim. A despeito do carinho e preocupação do marido em satisfazê-la, de sua excitação e curiosidade em experimentar o orgasmo a partir de um encontro com o sexo oposto, cada relação era seguida de uma intensa frustração mútua. Até o dia em que ela decidiu fingir, e descobriu que poderia encontrar o prazer sozinha. A seu ver, como amava seu marido e adorava ter uma família, fingir o orgasmo era apenas um detalhe para manter tudo em seu lugar.
Francine estava tão habituada em encontrar apoio apenas em seus próprios braços, que he parecia impossível mergulhar no abismo e lançar-se, confiante, na “ pequena morte” do orgasmo atrelada a apenas um outro corpo. Mesmo que este fosse o do homem amado...
Mas, aos 70 anos, intimamente Francine ainda sonhava... E sonhava com uma vida intensa, colorida e sensual como a da sua mãe – a mesma vida que aprendera a odiar.
E sua mãe, aos 94 anos, ainda estava viva, morava na casa de Francine, e exigia seus cuidados com o mesmo tom distante e ríspido de sempre...
