Refúgio por uma noite
Caio e Daniel era inseparáveis, assim como suas famílias. O primeiro tinha quatro anos, o segundo oito. Apesar da diferença de idade, havia uma forte amizade entre ambos: Daniel era paciente e se divertia com as estripulias de Caio. Este, por sua vez, via em Daniel um misto de irmão mais velho, um modelo, um herói. Sua família percebia isso e aprovava. Tanto que, na hora do almoço, frequentemente sugeriam a presença de Daniel para que Caio seguisse o exemplo do amiguinho e ingerisse os legumes e verduras que normalmente recusava.
Suas mães eram amigas desde o tempo de ginásio e, embora a vida tenha levado cada uma para um lado, quis o destino aproximá-las novamente anos mais tarde, ambas já casadas, quando passaram a morar no mesmo bairro. Ana, mãe de Daniel, era engenheira, como seu marido Frnando. Joana, por sua vez, formou-se em pedagogia, e trabalhava em uma escola pública. Seus maridos davam-se bem, e era muito comum as famílias divertirem-se juntas, criando o hábito de “juntarem as panelas” aos domingos, enquanto seus filhos se divertiam.
Quando as amigas se reencontraram, Joana estava grávida de Caio, e o pequeno Daniel se encantou com a idéia de ver um bebê crescer na barriga de uma pessoa. Em casa, seus pais eram aparentemente liberais. Fernando era comerciante, e viajava muito. Insegura, deixou o berço no quarto do casal, a despeito do belo quarto montado para o bebê. Com as viagens freqüentes do marido, passou a colocar o bebê em sua cama, a fim de facilitar o cuidado e se sentir acompanhada. Fernando, ao chegar de viagem, ficou embevecido com a cena, e o bebê passou a dormir aconchegado pela dupla. Com o tempo, Daniel foi retirado da cama, mas não do quarto: voltou para o berço e somente foi deslocado para seu belo quarto seis anos mais tarde. Durante todo este período, seus pais faziam sexo e assistiam filmes pornográficos durante as madrugadas, certificando-se de que o menino dormia - o que ele já tinha aprendido a fingir.
Quando seus os pais saiam, Daniel já sabia localizar sozinho o canal Privè da TV a cabo, e ficava encantado com o efeito daquelas imagens sobre seu corpo. A Descoberta da ereção, do sentimento de excitação que ele confundia com uma intensa vontade de fazer xixi o deixava entre agitado e curioso. Assistia novelas com sua mãe, e muitas vezes as cenas quentes dos folhetins causavam o mesmo efeitos dos filmes. Mas entendia que era algo a ser escondido, pois lembrava dos sussurros de seus pais, preocupados para que ele não ouvisse nem visse o ato sexual deles ou da tela. Mas, sem que eles percebessem, Daniel já havia aprendido muito.
Certo dia, a mãe de Ana estava muito enferma e o casal pediu a Joana e Renato que tomassem conta de Daniel para irem ao hospital. Como Caio já dormia sozinho desde bebê, Daniel foi alojado em seu quarto. No dia seguinte bem cedo – um domingo – Daniel voltou para casa. Foi então que Caio pulou no colo do pai, deu-lhe um beijo e disse:
- Sabe pai, ontem Daniel enfiou a língua dentro da minha boca e pediu pra eu enfiar a minha na dele. Eu enfiei, e não foi ruim, não.
Renato sentiu o sangue gelar dentro das veias. Joana, que estava arrumando a mesa para o almoço, ao ouvir aquilo, sentiu o coração dar um salto e deu dois passos para trás:
- Como é que é meu filho?
-Foi isso que eu disse, Daniel me ensinou a beijar. Depois ele pediu para eu chupar o pirú dele, mas aí eu não quis, não. Aí ele quis enfiar o pirú dele na minha bunda, e eu não deixei também.
Os pais, chocados, entreolharam-se, boquiabertos. Foi a vez de Caio gelar, pois sentiu, neste momento, que alguma coisa de grave estava acontecendo. Renato, revoltado, pensava em Daniel como um monstro, um abusador, que tentava desvirtuar a masculinidade de seu filho. Perguntou se isso já tinha acontecido outras vezes, e Caio, com medo e confuso, não respondia claramente, deixando o pai ainda mais nervoso. Foram imediatamente à casa de Daniel.
Ao chegarem, sem rodeios, Renato contou o ato, ao que Daniel , assustado, negou tudo. Foi quando Caio, em um gesto pueril e digno, disse:
- fez, sim, mas eu já te perdoei!!!
Mas seus pais não. Nervosos pela gravidade da enfermidade da mãe/sogra, envergonhados perante o casal de amigos e angustiados pela suposta homossexualidade do filho, puxaram-no para o quarto. E o espancaram. Descarregavam em cada tapa no rosto, chineladas nas pernas, nos braços que ele cruzava para se proteger, o peso do próprio sofrimento, ambos tentando infligir-lhe o máximo de dor, como penalidade ao que tinha feito. Os gritos da criança e de seus pais tomaram a casa, e, se tivesse cheiro, seria de uma podridão insuportável. Caio, paralisado, sentia-se desvanecer por dentro. Sentia algo frio como metal subir do estômago em direção à nuca, tomar-lhe os braços e pernas. O coração estava disparado, e em seu pensamento veio a frase: aaah, não!!!. Mas não conseguia falar nada. Seus pais, igualmente chocados, perceberam que não tinham bem claro para si o que esperavam dos amigos. De repente, Joana resolveu intervir: foi até a porta do quarto, que estava trancada por dentro e pediu, implorou que parassem. Disse que não era para tanto. Ao que a amiga respondeu:
-Não era isso que você queria? Senta aí e escuta!
Diante disso, Renato a puxou e tirou os dois dali. No quarto de Caio, o drama continuou, por longos minutos, até que ambos estivessem exaustos do esforço físico que foi descarregar sua dor e vergonha sobre o corpo de seu filho.
Fernando e Ana saíram, um para cada lado, sentindo-se, contudo, mais próximos por compartilharem o infortúnio. Daniel ficou só. Literalmente. Agachado no chão, seu corpo estava todo marcado pelos hematomas, mas a dor pior era a de dentro, um não saber por que tanto escarcéu, e estupefato em sabem que seus pais, a quem amava tanto, fossem capazes de unirem-se para machucá-lo. Não sentiu raiva de Caio. No fundo sentia que estava fazendo algo de errado: de outro modo, seus pais não fariam aquelas coisas de madrugada tentando esconder dele daquele jeito.
Joana, Fernando, Caio foram para casa, sem dizerem uma palavra. Joana e Fernando também se sentiam mais próximos. Juntos na sensação de confusão, exasperados pela reação dos amigos. Aquele domingo acabou em silêncio.
Caio ainda mais confuso, sentia-se culpado pelo amigo ter apanhado tanto de seus pais. Sentia-se responsável pelas dores do amigo. Já havia levado uma palmada ou outra de sua mãe, mas não sabia que os dois poderiam agredir um filho ao mesmo tempo e com tanta vontade. Também se sentia confuso em relação ao fato que causou a polêmica. Via seus pais sendo carinhosos um com o outro, beijarem-se na boca, sabia que isso era algo que os adultos fazem. Contudo, dormia em seu próprio quarto desde pequeno, e só assistia a programas infantis. De qualquer modo, depois daquele domingo, a vida de nenhum deles foi a mesma...
